segunda-feira, 26 de novembro de 2012

DESIGUALDADE PARA EQUILIBRAR!


Para fins didáticos e de compreensão histórica, costuma-se classificar os direitos humanos em três gerações, as quais, de certa forma, corresponderiam àqueles ideais da Revolução Francesa: liberdade, igualdade e fraternidade. A primeira geração, englobando os direitos civis e políticos e as liberdades individuais, é fruto da longa marcha das ideias liberais e tem sua inserção histórica marcada pelas conquistas da democracia americana.
 A segunda geração, correspondente aos direitos econômicos e sociais — basicamente vinculados ao mundo do trabalho, permanece associada às lutas operárias e socialistas na Europa, e sempre referidas ao ideal da igualdade.
A terceira geração, entendida como o conjunto de direitos decorrentes do ideal da fraternidade e da solidariedade (alguns falam até em solidariedade planetária) corresponde ao direito à autodeterminação dos povos e passou a incluir, mais recentemente, o direito ao desenvolvimento, o direito à paz, o direito ao meio ambiente saudável, ao usufruto dos bens qualificados como“patrimônio comum da humanidade.”
É preciso entender claramente o significado de igualdade contido na proposta da cidadania democrática. É evidente que não se supõe a igualdade como uniformidade de todos os seres humanos  com suas saudáveis diferenças de raça, etnia, sexo, ocupação, talentos específicos, religião e opção política, cultura no sentido mais amplo. O contrário da igualdade não é a diferença, mas a desigualdade, que é socialmente construída, sobretudo numa sociedade tão marcada pela exploração classista. As diferenças não significam, necessariamente, desigualdades, isto é, não deveria existir uma valoração hierárquica inferior/superior na distinção entre pessoas diferentes.
A estatística mostra que a educação de brancos e negros são extremamente diferentes, mas a desigualdade estará implícita se os sistemas de acesso a educação superior evidenciarem  essa diferença estabelecendo a superioridade educacional através dos sistemas de provas construídas tendo como base a educação recebida pela média educacional dos brancos. O vestibular é isto, uma prova da excelência educacional de um currículo que só é oferecido em escolas da elite, que é essencialmente branca.
A igualdade é sempre uma dimensão social, não individual. Ao contrário da liberdade, ela ocorre sempre dentro de um grupo social, ou entre grupos sociais, e não entre indivíduos isoladamente considerados. Existem quatro dimensões da igualdade democrática:
A igualdade diante da lei; que é um pressuposto da aplicação concreta da lei, quer proteja, quer puna. É o que os gregos chamavam de isonomia;
A igualdade do uso da palavra, ou da participação política; é o que os gregos chamavam de  isegoria;
A igualdade do  direito à diferença, que decorre, num paradoxo apenas aparente, ou seja, o direito que todos igualmente têm de preservar sua  identidade, bem como exigir tratamento específico em atendimento a necessidades singulares dessa;
A igualdade de condições socioeconômicas básicas, para garantir a dignidade humana. Desconhecida dos gregos antigos, é o resultado das revoluções burguesas mas, principalmente, das lutas do movimento operário e socialista nos séculos XIX e XX.
Fábio Comparato (1993) insiste, com razão, em que essa quarta igualdade não configura um pressuposto, mas uma meta a ser alcançada, não só por meio de leis, mas pela correta implementação de  políticas públicas. Pois a desigualdade aqui considerada é a que afeta as classes, grupos ou o gênero inferiorizados, isto é, que possuem menos força ou capacidade de autodefesa na sociedade. As classes ou grupos sociais inferiorizados têm direito ao exercício, pelo Estado, de uma política de integração social.
Neste ponto me afasto do discurso teórico e deixo aqui minha opnião à luz 3ª e da 4ª definição de igualdade, quando defendo que o sistema de cotas mais que uma correção das décadas de opressão  e subjulgamento da raça negra, primeiro pelo trabalho escravo e da manutenção de uma política de tratamento de sub-humanidade, com a negação dos direitos políticos e sociais do período escravocrata e segundo, mesmo após a libertação, e ouso dizer até nos dias de hoje, em função de uma miopia social que faz com que os negros sejam vistos, mas não efetivamente reconhecidos como atores sociais, e sim como figuras de cenário, a ponto de causar estranheza e espanto quando um negro se destaca e alcança relevância social ou  sucesso em áreas intelectuais e culturais.
Neste sentido, o sistema de cotas abrange e pressupõe a igualdade do direito a diferença,  pois trata com desigualdade um referencial derivado de um problema social artificialmente criado pela submissão de toda uma raça por outra. Submissão que afeta sim as gerações atuais, quando as oportunidades de acesso ao ensino gratuito e de melhor qualidade, são dirigidas e tem sua chave baseada em um perfil inatingível para a descendência da raça subjugada.
É natural que os agentes dessa casta dominadora, se interponham contra esta lei que reduz seu poder, alegando inclusive um sucateamento da educação, mas a verdade é que a presença de negros nas fileiras intelectuais e de pesquisa pode  e irá significar mais criatividade (já ocorreu isso na cultura, culinária, no futebol, e em todos os setores em que os negros conquistaram relevância), na educação, espero, do ponto de vista ultrapassado da visão míope intelectualizada pode significar redução da qualidade, mas tenho certeza que estaremos mais ricos e muito mais iguais, PELO MENOS NA QUANTIDADE!.

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